Sentada em um banco envelhecido, frio, tudo quieto demais, a
moça estava lá buscando respostas dentro dela de coisas que nem ela sabia
direito. Olhava para o chão e viajava num sonho profundo, sua cabeça estava
cheia demais, era tão difícil compreende - lá porque ela tinha muitos defeitos,
não era como a maioria e não queria ser. Algumas pessoas achavam aquele jeito
dela esquisito, maluco, de outro mundo, não gostavam, não entendiam o jeito
dela, e ela se fixava no mundo que criava dentro de sua cabeça e seu quarto.
Ela nunca foi do jeito que as pessoas normalmente são, e sempre soube disso, e
até tentou se “enquadrar” em algum tipo de grupo social, festas e pessoas
querendo ser algo definitivamente bizarro. Ela também não entendia o motivo das
pessoas ter esses jeitos, pra que tentar ser algo que você não é? É meio que um
medo de tentar ser realmente quem é? Medo do que os outros vão pensar ao seu
respeito? Ela não se importava com nada disso, talvez por conta disso não fizesse
parte de grupo algum. Perdida em pensamentos, ficava por ali vendo o dia
acontecendo enquanto desenhava em um caderno um rosto com um sorriso e uma
lágrima. Traduzia o que sentia às vezes. Era de uma expressão tamanha, tinha
olhos misteriosos e do lado era esfumado, com um ar de envelhecido. Dentro
daquele caderno havia cartas e textos antigos em que ela tinha feito há muitos
anos atrás, era uma espécie de diário. Folhas soltas, rabiscadas, números,
letras, corações, medo, alegria, tristeza, tudo misturado, dá pra imaginar isso
em um só caderno? Do lado dela havia uma bolsa onde ela tinha umas coisas
antigas, então a abriu e começou a ver aqueles pequenos tesouros esquecidos no
tempo ou com o tempo... Tinha um livro que ela leu na adolescência, um romance
é claro, e dentro daquele livro bem no meio dele tinha uma rosa. Ela ficou
surpresa com aquela rosa em pedaços, mas inteira lá no meio. E lá tinha um
parágrafo que dizia:
“Menina bonita era
aquela que não escondia o que sentia menina singela, doce e amarga porque a
vida pedia um pouco disso também. Era uma doce solidão, uma solidão boa, porque
não tem nada melhor do que estar bem e ficar bem com você mesmo. Pra que ter
mil pessoas do seu lado se quando precisar nenhuma vai estar ali?”
O texto continuava, mas ela não conseguiu ler, pois começou uma
pequena chuva e ela recolheu rapidamente seus pertences e sua bolsa e foi
embora. De uma coisa ela sabia. Aquela rosa não estava lá por acaso e seu jeito
não era um defeito, era apenas a sua maneira de ver o mundo a sua volta.
Sentada em uma poltrona, ouvindo algum programa no rádio. Adormeceu ali mesmo.
O dia seguinte, bom isso fica pra outro dia.
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